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Sinodalidades, ranços e avanços

a foto retrata o texto que reflete a sinodalidade em seus ranços e avanços, para isso considera os ritimos: lento, acelerado, harmonizado, entre outos

Já sabemos que o modo natural da igreja caminhar é de modo sinodal. Caminhamos juntos ao longo da história moldando nosso modo de ser e de viver a existência à luz da fé e da consciência mais humana possível. Caminhar juntos é nossa modalidade básica, isso já não é novidade. No entanto, nos traz desafios novos, ou melhor, nos desafia a renovar. Vejamos alguns traços: 1- o ritmo diferente de cada pessoa; 2- a tentação da coisficação da misssão; 3- novas mentalidades.

1. Ritmos

O dito popular afirma que se você quiser ir mais rápido, vá sozinho, mas, se quiser ir mais longe, caminhe junto com outras pessoas. O resultado da caminhada individual talvez lhe traga o troféu da vitória pela velocidade alcançada. Contudo, o processo para se atingir esse feito, até na vida dos atletas, é sempre acompanhado de várias pessoas. A vida e a missão evangelizadora é uma caminhada longa e não uma corrida curta. É desenvolvida num processo que inclui começo, meio, fim, recomeço, continuidade, metade, conclusão, novo início, prosseguimento, até chegar a eternidade onde o movimento dinâmico do amor é infinito. Nesse processo existencial há ritmos de todas as velocidades e passos de todas as modalidades. Vale a pena atenção a esse mosaico de movimentos.

1.1. Lentos

Há pessoas que seguem lentamente, sem pressa, sem preocupação. Dentre essas há quem haja com apatia, com algum grau de frieza, sem paixão, como dizemos “desenchavida”. Outras pessoas se portam sem firmeza, vão lentamente sem se ater aos resultados; tanto faz  o objetivo a ser alcançado. Todavia, ainda que em passos pequenos, há quem age concentrado. Essas pessoas não costumam dar passos em vão. Seguem firmes olhando para frente. É muito valioso considerar e respeitar esse modo de ser e de viver, do contrário, essas pessoas serão esquecidas, deixadas ao relento por não conseguirem seguir na mesma cadência de seu grupo. Devem ser ajudadas a aumentarem sua velocidade existencial.

1.2. Acelerado

Nessa trajetória de vida e missão encontramos pessoas com um impulso veloz. Às vezes são cheias de muitas criatividades. São velozes para pensar e  falar que até correm o risco de adoecer de ansiedade. Ao querer antecipar o tempo, entram em crise e levam consigo quem está à sua volta. Nem sempre tais pessoas são realmente rápidas. Afinal, há uma distinção entre ser rápido e ser apressado. Quem age com rapidez deve merecer respeito e ter seu espaço de atuação no seio da comunidade. Vale à pena ajudá-las a harmonizar sua velocidade ao conjunto da obra evangelizadora, para não deixá-las atropelar as demais e romper desnecessariamente com os processos em andamento.

1.3. Harmonizados

Em meio a tantas possibilidades e diferenças há pessoas com o dom do equilíbrio entre as relações. São capazes de agir com flexiblidade, procuram compreender às demais e fazer a ponte entre as várias formas e modalidades de pensamento. O diálogo é sua grande ferramenta de ação. Essas pessoas são muito valiosas em todo o processo evangelizador em especial no enfrentamento e resolução de conflitos.

2. Coisificação da missão

O ritmo e a velocidade com que se caminha na Igreja é acompanhado de atitudes, geralmente inconscientes as quais favorecem (ou não) a sinodalidade. Eis apenas três delas:

2.1. A pertença

Nos meios sinodais atualmente se afirma “a Igreja não tem uma missão; a missão tem uma Igreja”. De fato, a Igreja é Missão porque nela e por meio dela se realiza de modo mais condensado a missão salvadora do Pai. Mas, a salvação não está somente e nem acontece apenas na Igreja e por meio dela. Vai muito além. A missão tem a Igreja e a envolve no mistério salvador de Jesus.

Isso tem ressonâncias (ou não) na vida de cada agente da evangelização, especialmente nos líderes eclesiais. A tendência de inversão na ordem das coisas é muito grande. Há quem sinta-se dono da missão. Quem age assim, por medo ou incompreensão, por fraqueza, orgulho ou desconhecimento, corre o risco de transformar a missão em coisa manipulável segundo seus instintos e impulsos momentâneos. Nesse sentido a missão pertence ao indivíduo, quando deveria ser ao contrário.

2.2. Uso e propriedade

Se a pessoa alimenta a (in)consciência de ser dono da missão, faz uso dela. Utiliza seus espaços, meios e elementos diversos como se fosse proprietário. E, muitas vezes, assume como  proprietário, e, sem habilidade na gestão, praticando ingerências nas áreas que lhes são confiadas. Isso contradiz a atitude do serviço, pois quem não assume seu espaço evangelizador como meio e espaço para servir ao povo, usa o povo a seu serviço. Os tempos pedem novos comportamentos e novas inspirações.

3. Indicações de novas mentalidades

Nesse tempo de grande abertura ao impulso missionário, é possível e exigível novas ideias e princípios a orientar e inspirar novas atitudes.

3.1. Os quatro princípios do papa Francisco

O papa Francisco tem afirmado quatro princípios valiosos à sinodalidade da Igreja: o tempo é superior ao espaço; a unidade prevalece sobre o conflito; a realidade é mais importante do que a ideia;  o todo é maior que as partes. Em nossas palavras dizemos que o processo desenvolvido para se chegar em algum resultado é promotor de mudanças na vida da pessoa e não apenas gerador de números ocasionais. Toda ação ou programa de ação evangelizadora, deve despertar e alimentar uma caminhada de vida. O olhar à realidade deve ser bem atento pois ela sempre escapa a nossos olhos e por mais ampla que seja a visão, ela nunca abarca a totalidade. O todo, no conjunto é sempre maior que as partes e deve ser assim considerado.

3.2. As três virtudes cardeais

A sinodalidade não se refere a uma técnica ou estratégia de ação eclesial. Se for assim compreendida, coloca-se em igualdade a outras estratégias de ação pensadas e calculadas friamente em vista de recuperar ou manter poderes e domínios. A sinodalidade é reconhecida e não inventada. Para ser melhor assumida, é acompanhada das atitudes e virtudes cristãs. A fé é força impulsionadora que faz seguir avante na certeza de que tudo é do Pai, tudo lhe pertence; a caridade é a ação concreta que torna visível a consciência interior; a esperança é o motivo que nos faz olhar pra frente acreditando que as coisas ruins serão superadas e transformadas em boas, as boas se tornarão ótimas e as ótimas haverão de evoluir do excelente ao maravilhoso no Reino e no coração eterno do Pai.

3.3. A grandeza da humildade (dom, empréstimo, investimento)

Uma colaboração ao avanço da sinodalidade na vida pessoal e pastoral está na acolhida de tudo como dom. Todo dom suporta responsabilidades, desafios, meios, caminhos ao mesmo tempo em que se assume a mentalidade do cuidado e não do abuso e exploração do dom. Em outros termos, tudo o que somos, temos, sabemos, vivemos pertence ao Pai. Ao menos deve pertencer. Afinal, tudo nos foi presenteado por Ele para o crescimento, a humanização divina e a divinação humana da pessoa e da igreja como família, como povo. Deus investe na pessoa. Com humildade se acolhe esse investimento em busca de fazer crescer, multiplicar o dom divino. Com arrogância, autoritarismo, vaidade, é impossível desenvolver o potencial do dom divino. Somente a humildade leva a pessoa a assumir a postura das pessoas grandes e corajosas o suficiente para dizer “Senhor em tuas mãos eu entrego o meu espírito” (Lc 23,46; cf At 7,59).

Conclusão

Há um longo caminho a ser percorrido, embora já estejamos no processo de acolhida consciente da sinodalidade. O ministério é maior que o ministro a assumi-lo e sua grandeza existe por causa da missão confiada; a Igreja é maior que os ministérios e o Reino de Deus é nossa maior busca, já em construção. A sinodalidade nos leva a viver a vida ciente de que a bondade de Deus nos envolve em seu amor salvador confiando-nos a participação na missão divina. Tudo que fazemos é apenas cooperar na ação missionária do Deus Trindade. É Ele que vive, é Ele que reina, Ele que age. São Paulo dizia “já não sou eu que vivo é que Cristo que vive em mim (Gal 2,20)… evangelizar é uma necessidade que me foi imposta (1 Cor 9,16)… basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a graça manifesta seu poder (2Cor 9,12)”. Entre ranços e avanços, se formos verdadeiros em nosso caminhar haveremos de avançar.

Autoria do texto: Pe. Gordiano - Anori - AM, 23 de julho de 2024

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