Refletindo sobre a parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16)

 

Imagem: Tanrica

Autor: Sebastião Caldas 

Ao contar a parábola de um pai de família que saiu para chamar trabalhadores para sua vinha, Jesus está se dirigindo aos fariseus, povo que observavam a lei de Moisés, mas faltava-lhes a capacidade de assimilar conceitos como o amor e o perdão, por isso fechavam o caminho de Deus aos pobres, ignorantes, pecadores, publicanos e marginalizados; e criticavam Jesus porque acolhia esses pecadores, como fez com Maria Madalena, com o publicano Zaqueu e muitos outros que encontraram em seu caminho. 

Nessa parábola contada por Jesus os trabalhadores suportam o peso e o calor do dia, e reclamam porque os outros ganham o mesmo valor em apenas uma hora de trabalho, tal atitude do patrão parece injusta, e até mesmo antiética, mas não é; o acordo entre o patrão e os trabalhadores era de um denário, pagamento justo para um dia de trabalho, mas o patrão assim como Deus, teve compaixão dos muitos desempregados que se encontraram na fazenda, e pagamento-os com o valor equivalente a um dia de trabalho, valor desproporcional às horas trabalhadas, mas proporcionais às suas necessidades e de suas famílias. Aqueles que reclamam não participam da compaixão do patrão, sua justiça é como a dos fariseus, não tem amor. 

Essa parábola demonstra uma tentativa de Jesus em descrever a realidade do Reino de Deus, de mostrar o rosto de um Deus de amor e misericórdia que vai além da busca por igualdade, pois essa sempre permite desigualdade. O Deus apresentado por Jesus, tem sua justiça, seu amor e misericórdia pautados na equidade, pois essa trata cada um conforme suas necessidades e seu amor é igual para com todos. Quem exerce a compaixão conforme descrito por Jesus, aproxima-se do coração misericordioso de Deus, do contrário somos como os trabalhadores da primeira hora que murmuravam contra o patrão. Assim estaremos murmurando contra a misericórdia de Deus. 

A realidade que vivemos em nossos dias não faz tão diferente daquela em que Jesus se localizou e que o levou a contar essa parábola. Isso tanto não diz respeito às pessoas desempregadas em situações que ferem a sua dignidade, como também as existências de pessoas que assim como os judeus daquela época, não são capazes de exercer as práticas do amor e da misericórdia.

A visão do céu que permite a atenção dos “cristãos” do nosso tempo, arrisco dizer que é uma visão platônica, um céu que equivale a um espaço físico que não passa por uma experiência terrena das relações com as pessoas. É em grande parte um “Deus e eu”, não importa as realidades de injustiças, de opressão, de exploração e tantas outras realidades que ferem a dignidade humana. Essa parábola contada por Jesus e narrada por Mateus questiona essa maneira de relação com Deus sem passar pelo crivo das relações interpessoais.

É difícil entender como muitos posicionamentos de “cristãos” parecem tão distantes do Evangelho. Nos Evangelhos Jesus aparece sempre apontando para o Reino de Deus, que também é Pai, um Reino celeste e de vida eterna. Mas a centralidade deste Reino está numa relação de amor e misericórdia, essa é a essência da Relação entre Jesus e o Pai. “Assim como o Pai me amou também eu vos amei” (Jo 15,9), permaneçam no meu amor para que sejam seguidores dos meus princípios. “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei.” (Jo 15,12).

Esses versículos de João são postos aqui com a intenção de fortalecer aquilo que está em Mateus, um chamado a viver na justiça de Deus que ultrapassa a totalidade da justiça dos homens, pois a sua justiça está pautada no amor e na misericórdia que vem de Deus. Neste sentido, como podemos olhar para as realidades de desempregos, de exploração, de opressão impostas muitas vezes por trabalhadores que exploram os trabalhadores em nome do lucro, da economia, de uma capital que escraviza e mata a dignidade humana e não sentimos nos inquietos com isso? Infelizmente ainda vemos muitos cristãos que se fazem indiferentes a essas realidades.

Pensemos então que um cristão autêntico que segue a Jesus com olhar fixo nos Evangelhos deve ter outra mentalidade sobre essas realidades, seu coração deve estar inquieto diante de um cenário onde poucas pessoas têm muito, e muitas pessoas têm ou quase nada. Se essas realidades não nos inquietam é preciso que repensemos não somente as nossas atitudes como cristãos, mas também como ser humano. Jesus com a parábola dos trabalhadores quer nos chamar atenção para olharmos com sensibilidades para essas realidades de injustiças e falta de amor.


REFERÊNCIA:

BÍBLIA. Português.   Bíblia de Jerusalém : nova edição, revista e ampliada. 18. reimpr. São Paulo: Paulus, 2002.

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