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| Imagem: Pinterest |
A imagem da pessoa mergulhando na água do rio, expressa o quanto ela sente o envolvimento com essas águas. Do alto do cabelo passando por todo o seu corpo, tudo está banhado e encantado por ela. Não precisa explicar para si mesmo, basta sentir o frio, o calafrio ou o calor do sol escaldante cujo banho amainou.
Em linhas gerais para se entender a espiritualidade, pode-se dizer da tradição na experiência do envolvimento com a força do Espírito. Imergir, mergulhar nessa realidade permite sentir os movimentos que dele advém. Essa experiência é perpassante. Não há mais nenhuma área da vida que não seja alcançada ou ao menos percebida sem as luzes do Espírito a iluminar sua leitura. A começar pelo lado de dentro do próprio ser, as experiências já vividas guardadas no recôndito da memória, as realidades sentidas no momento e os sonhos e desejos planejados para amanhã.
Além do mais pelo lado de fora do ser, a luz do Espírito ajuda a ver e viver de modo distinto de quem não se banhou nessas águas. E em medida semelhante, nada fica fora do alcance espiritual. É bem verdade que não se pode espiritualizar tudo. Com efeito, tudo pode parecer semelhante, mas no coração, na mente, na voz e nos olhos de quem alimenta em si a espiritualidade, há uma expressão diferente.
Se há vários modos de pensar a espiritualidade, todos se refletem na mesma experiência espiritual. Mesmo assim focamos nossa atenção à espiritualidade missionária. Pelo lado mais interior da pessoa e pelo aspecto mais exterior a si mesmo. Em referência à sua interioridade, há um pulsar de vitalidade que não deixa a pessoa cair no estado da acomodação sem sentido, sem ânimo ou acostumada ao estado normal das coisas que "sempre foram assim". Mais que inquietação revoltosa, uma pessoa sente uma inquietação frutuosa geradora de novas motivações em si mesmo e testemunhando alegria e motivação aos demais.
O tempo vívido, as responsabilidades assumidas e desenvolvidas, as ideias concebidas e compartilhadas, os planos de ações elaboradas, e muito mais, esses movimentos espirituais são ricos da força integrada. Ainda que existam limitações humanas a força maior que faz uma pessoa seguir adiante, evita o jogo destruidor sobre as demais e o poder devastador dentro de si. A vontade ou a força de vontade não é meramente pessoal, está relacionada à vontade de servir e agradar a Deus. Eis alguns pontos a serem observados: a prática da oração; o uso do tempo; a atenção aos sinais do ambiente; o estar consigo mesmo; o fomento da comunhão.
É impossível haver missão sem espiritualidade. É impossível haver espiritualidade missionária sem a prática da oração. O alimento espiritual da oração falada, contemplada, celebrada pessoal e comunitáriamente, fomenta e forma um pouco a pessoa segundo o modelo do Senhor Jesus. A oração não pode ser desligada da vida. Mesmo que haja o tempo exclusivo para estar a sós com Deus, seus efeitos perduram no cotidiano. À medida do aprofundamento na Palavra de Deus e do envolvimento com suas lições, vai ajudar a pessoa a lidar com os tempos de bonança e os tempos de crise. Até sentir-se prolongado pela Graça sem a preocupação doentia de domar ou dominar a própria existência. Afinal, chegará o momento em que todas as situações vividas serão aceitas como parte natural da própria vida. Não haverá mais reações, revoltas ou desânimo. Tudo será relativizado diante da grandeza missionária abraçada.
O tempo dedicado à vivência missionária não será mais medido no tik-tak da cronologia, mas no tumtum da alegria existencial. O tempo humano há de se transformar no kairós divino em sua própria vida e na vida de quem é atingido por sua presença. Esse tempo contínuo correndo do mesmo modo, na mesma velocidade, no entanto com um sentido diferente. Ao invés da lentidão preguiçosa e cansada em fazer as coisas, ou da pressa ansiosa em terminar tudo e com a máxima perfeição, tenha a alegria pela oportunidade de se experimentar a graça de servir ao Senhor. Não há o medo de não dar tempo, nem a recepção de se estar fora da moda. Haverá o contentamento por se viver o tempo de Deus. Afinal o Senhor é superior ao Tempo. É Ele quem conduz a história.
A alegria motivada de buscar o algo mais, de superar-se, de vencer os obstáculos e servir ao Senhor continuará tendo influências e até limitações pelo lugar onde a pessoa se encontra. A espiritualidade missionária ajuda a perceber os sinais de Deus nesses espaços. Sem medo, preconceito ou coleta, sempre haverá de ver vida onde outros só captam sinais de morte; perceberá luzes onde aparentemente só há trevas; e enquanto muitos só veem fracassos, riscos ou pecados, a espiritualidade ajuda a ver a oportunidade de agir com a força do Reino que lhe conduz.
Essa forma fomenta e exige a centralidade integrada da pessoa consigo mesma. Não é uma espiritualidade difusa, que busca preenchimento o vazio com coisas, milagres maravilhosos e prodígios fantásticos. Ao olhar para a própria interioridade você perceberá o belo caminho já percorrido e o longo caminho a ser percorrido. Sem culpa, sem arrogância, sem dúvidas, a pessoa se sente responsável e grata. Responsável por todas as falhas que você ocorre em sua vida. Arrependida, esteja consciente da necessidade sacramental do perdão e ao mesmo tempo sente-se agradecida pela espera do Senhor que lhe permite fazer parte do seu corpo santo, crescer humana e divinamente.
Ao viver essa experiência espiritual e mergulhar em sua profundidade, uma pessoa sente que não se pertence. É pertencente ao Senhor. Por mais feliz e realizado que venha a sentir-se, o projeto reforçado não é propriedade pessoal individual. Trata-se de um projeto eterno de comunhão, de participação de todos e mais ainda de busca por envolver mais pessoas. A espiritualidade missionária respeita e promove a comunhão eclesial. Está a serviço da realização humana pessoal e da comunidade. A comunhão a qual nos referimos diz respeito aos irmãos e irmãs do mesmo nível de responsabilidade e vida, aos irmãos e irmãs sobre as quais se tem alguma responsabilidade e aos irmãos e irmãs a quem se deve respeito. Contudo, ninguém pode trabalhar e impedir o Espírito de agir. A espiritualidade missionária ajuda a pessoa a não se impactar. Se tudo parecer perdido, Deus sabe a melhor hora para agir.
Em tempos de sinodalidade relembramos que a espiritualidade é um modo de viver a vida sintonizada com Deus que habita o próprio ser, está na vida de cada pessoa, perpassa realidade e envia em constante movimento de saída para escutar, acolher e anunciar com palavra e a própria vida, a boa nova do Reino de Deus.
REFERÊNCIAS:
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB) Programa Missionário Nacional- versão atualizada e ampliada; 1ª edição; Brasília, DF; edições CNBB, 2025.
FRANCISCO. Evangelii Gaudium: A alegria do Evangelho. Paulinas; São Paulo, 2018.
MENDONÇA, José Tolentino. Nenhum caminho será longo: para uma teologia da amizade- São Paulo: Paulinas,2013 (coleção Dádivas do infinito).
PONTIFÍCIAS OBRAS MISSIONÁRIAS. Texto base do V Congresso Missionário Nacional: "Ide: da Igreja Local aos confins do mundo". Brasília, DF; POM, 2023.
XVI ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS- para uma igreja sinodal: comunhão, participação e missão; 1ª edição; Brasília, DF: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Edições CNBB, 2024.

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