A ORQUESTRA

essa imagem retrata o artigo que conta a história do maestro que veio do exterior com sua orquestra atuar por uma temporada e sua dificuldade de adaptação na realidade
Foto de Ramon Karolan

O promoter divulgou o início do evento e a multidão se alvoroçou para estar presente. À hora do início quase nem se via o verde do gramado, todo ocupado pelos convidados ao evento. Os de longe e de perto aos poucos foram se inteirando da realização. O personagem em destaque é o maestro Memap Sextin. Ele vem de longe, com formação em níveis elevados da teoria. A orquestra é "multissonora", polifônica e polissêmica. Há grupos de vozes de diversos timbres e cantam em vários graus ao mesmo tempo. Os músicos são muito mais do que os componentes das óperas conhecidas. Violões de seis, sete, dez cordas; violinos, violon celos, prato, agogô, metais (saxofone, trompete, trombones, cornetas), sanfonas de tecla e de botões, e vários instrumentos rústicos como pau de chuva, "checo" de caroço. O desafio do regente é ajudar esse conjunto a entrar em harmonia e iniciar sua apresentação com mestria do começo ao fim do espetáculo.

O show reuniu pessoas de várias localidades. Das áreas rurais e das cidades vizinhas. Dessa vez não vieram apenas assistir. Vieram cantar, aplaudir, se emocionar, conviver, celebrar. Algumas pessoas nunca tinham participado desse tipo de evento. As expectativas eram as melhores. O artista principal chegara alguns dias antes, sendo acolhido pelo povo em marcha pela humilde cidade de Novaíta. A chegada prevista não contemplava mais que 7 pessoas no aeroporto. Mas ao final uma fila gigante de motos, carros e pedestres se uniu no trajeto percorrendo as vias principais de Ita com o regente chegante.

O show inicial

À hora marcada tudo foi iniciado. Mas o esperado não regeu, como se ansiava, apenas colaborou na execução de algumas peças. Todavia, todos os presentes fizeram história ao participarem do início de um longa temporada de eventos na região, podendo chegar a vários anos ou poucos meses. A primeira expressão desse novo tempo foi a mudança do nível musical. A Camerata Local passará a ser chamada de Orquestra Regional. É o reconhecimento do esforço de quem regeu o grupo até o momento passando de poucas unidades musicais há mais de 100 componentes, com variedades de posições, composições e estilos diferenciados. Muito importante dizer que os componentes, com raras excessões, são natos do lugar, foram acolhidos e preparados sob os auspícios do regente antecessor. Agora todos tem um título maior e, como tal, mais elevada responsabilidade.

Ao findar o evento inaugural, o público seguiu para seus lugares. Advindos de muitos cantos diferentes, distintos também eram seus meios de transportes, sendo a maioria usado na água: canoa, bote, barco, lancha. A saída do porto foi outro espetáculo de contrastes sonoros. Desde os pequenos 'rabetas até as grandes máquinas'. Os moradores de perto embarcaram em suas canoas, os de longe adentraram nas grandes embarcações, uns subindo o caudaloso rio, outros seguindo a correnteza em direção oposta. Pouco a pouco o silêncio da margem voltou a reinar. 

Os desdobramentos

Os próximos eventos em breve serão informados. O maestro veio para viver longos anos, conforme anunciado e será longa sua temporada de viagem pela cidade de Novaíta e pela região até onde chegar sua influência. Este primeiro momento sinalizou alguns elementos para a equipe de integrantes da orquestra. Ele conhece sua arte, no entanto carece de tempo para adaptação. Os sinais e movimentos principais dos regentes de Orquestra (entrada, pulso, acento fermata...) são  muito bem aplicados, mas o idioma, a indissiocracia ("o jeitão") é bem distinto dos trejeitos de sua equipe.

Vindo de um país europeu, conhecedor da teoria musical dos grandes musicistas da história, tende a fechar-se sobre a base teórica apenas repetindo com perfeição as obras já conhecidas da história - as sonatas, as óperas, as músicas para corais e câmara, quarteto, piano, quinteto; mas em Terras Brasilis ainda não fora formado nem ao menos havia procurado informar-se, ou pior que isso, não conseguiu ver qualidade nos estilos musicais de sua gente: samba, forró, choro, baião, frevo, músicas regionais (dos pampas, da Amazônia...). Isso aponta para dificuldades.

Os integrantes principais da orquestra também estudaram, são conhecedores das teorias básicas da musicalidade que tocam e todos tem elementos a mais a enriquecer a execução de seus movimentos e embelezar sua arte, ou do contrário, a gerar desafinações. Todos são nascidos pelas bandas da região onde atuam. Estudaram na capital e retornaram para seus locais de origem enriquecidos pelas experiências de andarilhos, de viajante por terras estrangeiras, mas sem perder o traquejo com sua terra. Estão acostumados aos diversos sons e sinais sonoros dos grandes e pequenos animais habitantes das localidades regionais. 

Esse conhecimento amplia suas capacidades criativas permitindo até mesmo reconfigurar os termos aplicados em alguns contextos, ademais valorizar outros sons e instrumentos de pouco reconhecimento nas obras clássicas. Para eles é muito superficial diferenciar ou contrapor som, barulho, silêncio e ruído. Nesse grupo tudo pode ser chamado de som, isto é, pode ser incluso como efeito sonoro de alegria, espanto, emotividade, medo, etc. Enquanto para o maestro, tudo isso pode soar como falha na formação, ou falta de técnica, para os demais soa como capacidade criativa, como liberdade espiritual do artista. Dentre outras iniciativas os artistas locais criaram e utilizam instrumentos de madeira desconhecidos em outras paragens como o Cajón, juruparis, flauta de bambu. Quanto às melodias e acompanhamentos há expressões musicais simples e próprias dessas terras cujo desconhecimento do Maestro o impede de valorizar e perceber sua beleza. As desafinações logo começaram a ser percebida.

As desafinações

Para o chegante seu serviço limita-se ao extrito exercício da regência e ao que diz respeito às suas teorias, em especial ao seu campo de formação profissional clássica. Para os integrantes de sua grande Orquestra não basta atentar-se à preparação, e apresentação da arte musical no palco. A arte mais linda e completa ultrapassa o espetáculo no palco das apresentações. Diz respeito ao espetacular show da vida o qual abrange também o adágio popular "o artista vai onde o povo está". Essa lógica combina competência, dedicação, e humildade de seus artistas e desafia o europeu a tomar outra postura. Enquanto seus pares saem ao convívio da gente da região para perceber a musicalidade de sua alma, de sua fala, de sua cultura, o regente tenta o mesmo por meio das redes e mídias sociais. 

O contato com as pessoas permite compreender, sentir e respeitar o andamento de sua musicalidade segundo o ritmo de suas vidas. Ao que parece o REGENTE aprecia e vive em andamento VIVACE e PRESTÍSSIMO, enquanto seu povo está situado entre MODERATO, LENTO e LARGO. Antes de aparecer no palco, as desafinações são percebidas no cotidiano. A mesma velocidade musical se espelha na comunicação lenta e às vezes grave e serena dessa gente, enquanto o LÍDER REGENTE, fala rápido e com impetuosidade. Por vezes os enfeites vocais e musicais também se mostram como meios dissonantes e discordantes na arte musical, sobretudo existencial. A teoria dos enfeites fala de TRINADO, MORDENTE, GRUPETO, APOGIATURA, GLISSANDO, os quais dão um colorido a mais à música; os componentes da Orquestra eram mais antenados ao Vibrato, staccato, falsete e vocal fry. 

Nos encontros e reuniões periódicas de todos os integrantes pouco a pouco um clima de desafinação foi aparecendo entre todos. Em parte pelas opções do Maestro por sua fixação ao universo teórico e sua falta de atenção à realidade de seu lugar de atuação. Ademais ele permitiu que alguns músicos fizessem sobressair seu som mais que os outros. Ainda que tal situação não fora percebida pela audiência (o povão que o assistia), os raros apreciadores e críticos (gente experiente e bem formada) pressentiram riscos de desmoronamento no grupo. E não tardou para surgir outros. Houve quem assumisse a posição pertencente ao spalla (violinista principal o qual é único em cada orquestra), com certas habilidades, vontades, sem considerar a necessidade da sincronia sonora entre todos os músicos. Em outras palavras, além do Maestro regente houve mais de um comportando-se como liderança à frente dos demais. A orquestra foi atingida. Quase houve um racha divindo-a em dois grupos: os favoráveis ao REGENTE e os contrários a ele. 

O grupo dos favoráveis, aparentemente sem perceber decretava orientações, e em várias ocasiões reunido com o Regente apresentando-lhe sugestões, pedindo conselho, e, tristemente compartilhando interpretações como se fosse fato objetivo. O mal estar foi sendo gestado. A amizade com o regente foi confundida com o "jogo da influência". Por um momento o Líder se sentiu bem protegido. Ele sabia que em todas as oportunidades de suas falas, havia um pequeno grupo a ecoar suas ideias. Mesmo discordando do sentido ou do conteúdo apresentado, tendiam a defendê-las em nome da confiável amizade estabelecida com o chefe. Por outro lado, o mesmo estado emocional não era compartilhado com o grupo contrário. Quase tudo proposto pelo Maestro era objeto de questionamentos, críticas ou debates. As ideias provenientes seriam maravilhosas como fruto das reflexões tecidas nos momentos de tensões, no entanto havia muita dificuldade em se atingir este patamar de compartilhamento, produção de ideias. O Regente sentindo-se ameaçado não sabia como apresentar suas visões sem atacar e os membros de sua orquestra do grupo contrário não conseguiam ver nessas falas algo confiável. Restou a colaboração de mais alguém, o grupo do meio.

O grupo do meio tentou a todo custo olhar as situações com objetividade. A sabedoria espiritual e artística não poderia ser abafada pelas simpatias e interesses desfocados do objetivo da Orquestra. Em diversas ocasiões foi este grupo a apresentar indicações, pautas, pausas para retomar a direção certa para o espírito da equipe. A arte tem valor superior ao que se compreende como preço e foi essa uma das grandes questões enfrentadas - a questão financeira. Ademais, não cabe ao maestro o papel de cantar, mas de reger com harmonia as múltiplas vozes de seus cantores e os sons de seus instrumentos. A dificuldade do regente é com a fala. Seu sotaque estrangeiro é menos complicado que o espírito de suas palavras. A voz que não ecoa no canto, distoa nas falas opiniosas sobre cada um de seus músicos. Os favoráveis aplaudem, os contra discordam,  as palavras afiadas como espada atingem a imagem de seus pares. O estrago seria pior se todos dessem credibilidade a tantas falas manchadas por interpretações perigosas. Nesse caso, há outros riscos, sendo provável a palavra do maestro nem ser mais respeitada pelos ouvintes. O desgaste emocional corroi mais as emoções que a ferrugem aos metais. Não tardou para se perceber a quebra na formação do grupo.

As mudanças na formação (entra e sai)

Desde sua chegada nas Terras de sua regência, Memap Sextin viu seu grupo mudando de configurações algumas vezes. Foram acrescidos sete membros, os quais tomaram acento na Orquestra, e, deixaram seus pontos de execução ao menos 5 integrantes. Alguns foram tocar em outros círculos, outros em meio às tensões desnecessárias afastaram-se para não desqualificar a personalidade e sua arte. Houve caso de escândalos envolvendo integrantes do grupo. O maestro não desafina na musicalidade do palco, mas tem a tendência de desafinar fora dela. Em todas as apresentações ao público, ele estampa suas feições de contentamento, com atitudes de atenção, gratidão e simpatia para com o público. Diferente de muitos de sua classe, ele próprio se atencipa para o registro de seus momentos com a "audiência". Quem frequenta os bastidores sabe dos detalhes e sutilezas ou das práticas explícitas de críticas contra o maestro. Na verdade, esses  "arroubos criticistas" são despertados pela frequência com que o líder manifesta suas opiniões e teses condenatórias contra os membros de sua própria equipe, os quais vez por outra ativam seu senso de revolta e a dissonância vivencial invade "o camarim".

No afã de não ver seu trabalho interrompido antes do encerramento oficial de sua carreira, o maestro usa algumas alternativas razoáveis.  Consegue importar colaboradores temporários que atuam junto com seus profissionais segundo seus tempos de atuação. Vindo de outras regiões geográficas, o contrato de permanência também é limitado, logo ao findar, cada um retorna à seus lugares de procedência. Para ilustrar ainda mais seu impetuoso desejo de grandeza, investiu esforços nas melhorias dos espaços pertencentes à sua Ópera. São prédios preparados para acolher várias pessoas para os momentos diversos de convivência, formação e capacitação em sua profissão. A preocupação com o investimento nos espaços contrasta com a beleza de sua fachada. A aparência e estilo externo obscure a lezeva e funcionalidade de sua interioridade. Mas  em tempos de redes sociais, os cliks fazem ecos para muito além deste lado do oceano e há sinais de aplausos do além mar recheado de bênçãos dolarizados. 

A Orquestra continua em formação, deformação e reformulação. Todos são bem formados em suas áreas e em áreas alternativas. Dentre esses saberes destacam-se contadores, antropólogos, filósofos, agricultores, psicólogos, historiadores, advogados, "médicos", especialista em assuntos religiosos. Essa riqueza de saberes forma um dado a mais na qualificação humana e artística dessa grande equipe. No entanto, conforme o tempo avançou os sinais de agressão à arte foram acrescidos de pausas e contrapontos distoantes. Um dos grandes membros da orquestra afastou-se de seu espaço indo investir nos saberes antropológicos. Entre idas e vindas sobre as águas e as pistas de seu novo mundo. Alguns meses após o anúncio da partida do mais experiente do grupo, um outro pesquisador também resolver investir em outra carreira. Seu estilo filosófico de ser, despertou em seu coração muitas inquietações, perguntas sem respostas, respostas sem fundamentações até que a música "orquestral" perdeu a beleza e o encanto dos anos anteriores quando outrora fazia aquecer a interioridade de seu ser configurando-se como sua única paixão. A sequência de encerramento de contratos seguiu-se. Em menos de seis meses, três membros da equipe migraram para outras atividades e formas de viver. O terceiro, contador, descobriu em meio à arte a vontade de contribuir com a vida abrindo linhas de serviço às outras pessoas. Na arte de sua 'musicalidade' já não percebia abertura para uma inclusão remunerada. Ao lado de seu padrinho na 'contagem' ele fixou seu ponto de atuação e envolveu assessores para sua melhor atuação e da nova equipe oficial. Passaram-se mais alguns 3 anos e a modalidade de gerenciamento da arte, a preparação e formação contínua com os demais integrantes, não tiveram sinais de melhoria. Mais um dos grandes agentes pediu afastamento do palco e da arte onde atuava. Demonstrou decisão pela vida campesina, investindo na criação, plantação e turismo ecológico. Levou consigo sua companheira e fã principal que apoiou e motivou sua decisão. Com todos esses episódios as mudanças nos modos de condução da grande Orquestra Regional não sofreram alterações. Durante as apresentações, tudo sempre mantém seu padrão. Não se pode expor à audiência assunto do camarim.

Pois no camarim, nos bastidores e fora dos espaços de apresentação, o borbulhar dos ruídos ganhou campo.  Durante o tempo da escuta da musicalidade dos espectadores, um sinal de "microfonismo" perigoso começou a surgir. Os deslizes da vida artísticas são perigosos e quase todos iniciam com a falta de respeito e cuidados aos limites naturais ou "convensionados". E assim sucedeu com o último integrande a deixar seu ponto de atuação. As emoções foram se atiçando. Os momentos de estresse sendo sufocados pelo tempo de 'relaxe'. Os ensaios, as pequenas apresentações, os aprofundamentos foram sendo minados, ora pela ausência, ora pela 'presente ausente', ora pela presença de vários seres no mesmo espaço, parafraseando a teoria da física quântica. No mesmo espaço às vezes estava o homem artista, orador, profissional disputando atenção silenciosa com o boêmio, manipulador, apaixonado compulsivo e preocupado menos com a arte do artista e mais com a 'arte do arteiro'. O  maestro não conseguiu centrar sua atenção nesta parte da partitura escrita nas pautas da vida. Essas pautas estão quase abaixo da 'clave de fá', isto é, são marcadas como 'graves'. A desenvoltura na arte não foi a mesma para a continuidade do risco.

Por um momento pareceu que toda a Orquestra estava desmoronando. Ela foi atingida em cheio. Um eco como som rouco dos 'três surdos" ecoou longe e quase ensurdeceu os ouvintes. O 'orador' foi suspenso de seu posto e levado para longe de sua atuação. As autoridades externas à arte cassaram temporariamente seu direito de ir e vir. Ironicamente, ocorreu o que parecia ser sonho do Maestro, visto por todas as redes conhecidas. E mais uma vez Memap Sextin regeu sem maestria. O show ainda haverá de continuar, mas não se sabe se o maestro vai conseguir reger a Orquestra com destreza algum dia. O grupo e a audiência seguem seu exercício pela batuta do regente até que o dono da obra determine a hora do fim dessa temporada.



Pe. Raimundo Carvalho Gordiano






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