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| Foto de Mustazir Likhon |
Neste exato momento, o ponteiro principal deste relógio, que me acompanha há tantos anos e que adquiri com tanto esforço, marca meia-noite. Já é a terceira noite em que tento descansar meus olhos cansados, mas uma curiosidade inquietante me consome. Por três noites consecutivas, exatamente por volta deste horário, os cães desta cidade se enraivecem e perdem o controle, criando um som ensurdecedor com seus latidos.
Na última noite, não resisti e fui investigar. Abri discretamente a porta principal e, ao espiar, vi sete filhotes, de pelagem escura e marrom, latindo furiosamente. Olhei ao redor, mas não percebi nada de anormal. A rua estava vazia, e o silêncio da noite contrastava com a agitação dos cães. Eu dormi novamente, embora o som dos latidos ainda ecoasse em minha mente. No dia seguinte, resolvi conversar com alguns moradores sobre o que acontecera. Fui até a pequena feira da cidade, que estava cheia de gente, todos procurando o que levariam para o almoço. Lá, encontrei uma mulher e falei sobre os estranhos latidos. Ela me olhou, como se soubesse o que eu procurava, e respondeu com uma calma perturbadora:
— Ah, reverendo, isso é comum por aqui. Os moradores dizem que tem a ver com 1980...
— 1980? — perguntei, intrigado. Ela tentou continuar, mas suas palavras se perderam no barulho da feira, com as pessoas se esbarrando e a rua estreita passando bem em frente àquele tumulto. Não consegui ouvir direito o que ela dizia, mas mencionou algo sobre cães mortos em 1980.
A conversa ficou confusa, e eu não consegui captar todos os detalhes. No entanto, algo na maneira como ela falou me deixou com a sensação de que havia mais por trás da história, algo que estava precisando ser desvendado por mim que a poucos dias ali naquela pequena cidade chegava. Ela me olhou de forma enigmática antes de se afastar rapidamente, e, embora não tivesse todas as respostas, uma coisa era certa: eu precisava investigar mais a fundo o que acontecera em 1980 e como isso se relacionava com os cães e alvoroços na madrugada.
Agora, mais do que nunca, a minha curiosidade me empurrava para buscar a verdade, mesmo sabendo que talvez fosse melhor deixar o passado onde ele estava. Mas eu sabia que algo estava à espreita nas sombras dessa cidade, e eu não poderia ignorar.
No dia seguinte, resolvi investigar mais a fundo e fui até a sala de arquivos da Paróquia, em busca de algum registro histórico que pudesse lançar luz sobre o que estava acontecendo. Por sorte, encontrei três volumes chamados Livros Tombos, que eram diários de atividades importantes da cidade de Beruri desde a época em que ainda era uma simples vila. Folheei e reli as páginas, em busca de algo que esclarecesse o que se passava, até que, quase como se o destino tivesse me guiado, abri uma página marcada em 14 de março de 1980.
O que eu encontrei fez meu coração bater mais forte. A anotação falava de uma reunião com todos os moradores da Vila de Beruri, onde uma senhora tomou a palavra e relatou com urgência um problema grave que assolava a vila: quase todos os filhotes estavam doentes. A situação se espalhara rapidamente, e uma epidemia terrível havia se instalado entre os cães da vila. O clima na reunião era pesado, tenso, com os moradores claramente apreensivos e sem saber o que fazer.
Foi então que, no meio do encontro, uma voz forte cortou o silêncio, como uma lâmina afiada. Um homem levantou-se e declarou, com um tom firme e definitivo:
— A solução é que devemos eliminar esses cães, pois a doença deles é contagiosa.
E, naquele momento, o relato no livro tombo terminou. A partir dali, não havia mais nenhuma linha sobre o que aconteceu depois da reunião. A página terminava abruptamente, como se a história tivesse sido interrompida, como se algo tivesse se perdido no tempo.
Minha mente começou a trabalhar freneticamente. O que aconteceu depois dessa reunião? O que realmente aconteceu com os cães da vila? Fui tomado por uma curiosidade perturbadora, como se estivesse sendo puxado para uma investigação sem retorno. Será que realmente eliminaram os cães? Não havia como saber com certeza. As versões que ouvi de algumas pessoas variavam. Alguns diziam que os cães começaram a morrer de tão doentes que estavam, um após o outro, em silêncio. Outros falavam que os levaram para um local distante, longe da vila, como se quisessem apagá-los da presença de todos. Mas, o que mais me arrepiou foi o que restou: apenas filhotes recém-nascidos, cujos latidos solitários se ouviam nas madrugadas, ecoando na vila vazia, como se estivessem buscando suas mães, desaparecidas sem explicação.
E assim, todas as noites ainda hoje, por três minutos, como se o tempo se repetisse, os cães ainda uivam. Seus latidos ressoam pelas ruas da cidade exatamente à meia-noite, como um lamento antigo, uma lembrança sombria dos desaparecimentos misteriosos de seus ancestrais. Algo ainda os prende, algo que ninguém explica com clareza. Talvez o que eles recordam seja uma verdade que ninguém está preparado para lidar: o uivar dos cães lembra os moradores do mal que fizeram no passado.
Diácono Leornado Rufino
