Existe mais de uma geração familiarizada com os livros e também com os filmes da saga Harry Potter, o jovem bruxo e seus amigos que vão desenvolvendo suas habilidades mágicas, adquirindo maturidade e que enfrentarão o poder do mal. Na primeira década do século atual, os livros que contam essa saga foram adaptados para o cinema. A saga tornou-se uma febre mundial.
Por trás de todo o fascínio, como acontece sempre nos contos de fadas e na ficção, está a aura mágica que cerca todo o ambiente, o desejo humano por superpoderes, a ideia de um mundo outro, à parte, que divide a realidade das pessoas “normais” e a realidade daqueles que vivem da mágica.
Pois bem, a religião é um dos ambientes mais favoráveis para o desenvolvimento do delírio de um mundo mágico, paralelo, em que as forças das divindades estejam constantemente intervindo na realidade das pessoas normais, criando o fascínio por ideias mágicas. Nos últimos anos o catolicismo brasileiro começou a dar sinais de um retorno às visões cristãs mágicas que se pensavam já superadas.
Basta um olhar superficial para aquilo que está sendo veiculado nas redes sociais e nas TVs católicas para chegar a essa conclusão: terços milagrosos; óleos bentos detentores de poderes mágicos; orações antigas ressuscitadas para que se resolvam problemas determinados; devoções medievais e do início da modernidade que, antes esquecidas, voltam a ser publicadas e incentivadas; correntes, medalhas, véus e outros objetos que ultrapassam o limite do simbólico e se tornam verdadeiros amuletos; supostas aparições e visões de santos, anjos, de Nossa Senhora, são recebidas com mais veneração que o Evangelho. É um catolicismo Harry Potter.
O catolicismo Harry Potter é como eu chamo essa ruptura da fé cristã com o Evangelho, empurrando novamente a vida cristã para devocionismos teologicamente caducos e infantis. A fé cristã constitui-se no seguimento de Jesus, Filho de Deus feito homem, que comunicou ao mundo a salvação. Seguir Jesus significa buscar adequar a vida aos ensinamentos d'Ele. Portanto é viver no ritmo das bem-aventuranças (Mt 5,1-12; Lc 6, 20-26), ter como lei única e último o mandamento do amor (Jo 13, 34-35), colocar-se a serviço dos irmãos e irmãs (Jo 13, 12-15), recordar que a justiça será realizada a partir do como servimos a Ele nos menores desse mundo (Mt 25,31-46).
Essa esclerose teológica que invade nossas comunidades nada tem a ver com o Evangelho de Jesus. O Concílio Vaticano II pediu, reiteradas vezes, que a Escritura estivesse no centro da renovação da vida eclesial, que fosse a alma de toda a teologia católica. Papa Francisco, por sua vez, pediu que a teologia fosse feita a partir da realidade, sendo sempre contextual. Estamos passando por um momento difícil em nossa Igreja. Aquilo que parecia já superado, volta à baia, toma força, se reestrutura e tem em vista apenas uma coisa: infantilizar as pessoas, iludi-las com visões mágicas da realidade, afastar nossas comunidades do Evangelho de Jesus.
O catolicismo Harry Potter chegou com força, apoiado pelas mídias, pelas facilidades do mundo digital, e claro, por interesses financeiros de grupos que nem sempre gostam de mostrar seus rostos. É um desafio ao cristianismo do século XXI. Trabalhemos para superar essa esclerose teológica, mostraremos a força que brota do Evangelho de Jesus e comunicaremos a fé em Cristo ressuscitado não a partir de visões mágicas, mas da maturidade como estabelecemos nossa relação com a realidade.
