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Na manhã mais quente do verão de agosto, as águas brotavam por todos os poros de dona Flor. Entre lágrimas e risos de desespero surgiu um pontinho crescente entre as duas pernas da mulher que estava se tornando mãe. Aquele sofrimento trazendo dois personagens à tona: a criança nascida da mãe e a mãe surgida com o nascimento de seu primogênito. Com muito jeito e talento natural, e anos de experiência na arte, cumade Preta ajudou o menino a sair do aconchego limitado do ventre materno pra ver a luz do lado de fora. A alegria de vir todos acompanhada da surpresa pelo gigantismo aves àssas do bebê. Quase não cabia na mão da parteira. Ao ser posto perto da mãe, igualava-se ao tamanho de seu rosto miúdo.
Tirando o longo choro forte do recém-nascido, tudo em volta ficou em silêncio. As folhas pararam de cair, o vento pauou seu silvo e até a guariba que urrava ao longo tempo ficou em estado de morbidez. Pareciau sórdida aquela cena digna de uma hora de espanto. A mãe atônita deu um grito abafado perguntando "meu deuuuuuso, o que aconteeeceeuu?". Todos em volta responderam como quem não entendeu a pergunta. Não aconteceu nada. Daí pra frente o menino nasceu a cena. Abre os pequenos braços como quem acaba de acordar e se prepara para sair ao trabalho cotidiano. Abriu a boca e assustou a todos os presentes com seu choro. A potência do barulho fez com que os presentes percebessem um dom diferente no pequeno ser. O poder de sua garganta esteve muito à frente das crianças e até de alguns jovens presentes na ocasião. Entre surpresas e sustos, os curiosos perceberam algo diferente do comum levantando outras suspeitas sobre o futuro do menino. Seria doença, qualidade divina ou presença do mal? O alarido do choro fez vibrar a natureza em volta. Em meio ao silêncio sepulcral da ocasião, ecoou longe as ondas sonoras daquele peito infantil. Como se fosse tudo acordado a natureza assustada emitiu seus sinais sonoros. O som do zumbido silênciondo no ouvido, as folhas caindo das árvores e a vida despertando como no domingo da ressurreição.
Foi assim que esse ser gigante veio ao mundo e mostrou com sua pequenez a grandeza de uma vida em construção permanente e em luta frequente. Lutou contra o preconceito de quem não lhe via como filho de gente apesar de seu formato humano, embora minúsculo. Enfrentou as queixas contra suas lágrimas; quando vinham eram acompanhados com choros berrantes fazendo eco nas redondezas. Enfrentou a difícil arte materna de se decifrar tais choros. Todos eram potentes.
Por trás de tais sonoridades havia muito mais que gosto infantil. Demorou tempo para se descobrir as mazelas profundas da criança e os motivos de seus sofrimentos frequentes e de seu lento desenvolvimento. Um ano após seu nascimento contínuo o pequeno cabendo na palma da mãe, ficando as pernas e os braços pelo lado de fora. Remédios naturais usados como unguentos, chás misturados na água, banhos com folhas de plantas poderosas e muito mais foram usados para ajudar a vencer os limites dessa vida. Desde o começo houve muitas expressões adversárias. Elas se tornaram diferentes das vidas ao seu redor. A aparente fraqueza do corpo escondia a força da atração inconsciente da vida que transborda de si para muito além.

Crédito d imagem: freepik
Em uma ocasião, Valério chegou do roçado e se assustou ao entrar em casa. Sentiu um cheiro de comida diferente do tempero que dona Flor costumava usar em seus pratos saborosos. Adentrou o recinto e perguntou "Flor que caça é essa?". O sangue logo ferveu. Mil desconfiança lhe veio ao juízo. Ela teria farinha vendida sem pedido para comprar carne diferente de algum regatão? Ou pior ainda, teria sido presente de algum pescador ou viajante esperto que tentasse lançar seduções à sua rainha? Dona Flor, ao ouvir o grito agressivo do esposo correu-lhe ao encontro para irritar seu ímpeto. O marido teve um arrobo de ciúme e de fúria, mas, de repente foi vencido pela força do berro. A criança chorou bem na hora que a mão foi erguida para voltar pesada sobre o rosto da amada.
Esse primeiro feito bem que merecia ser escrito no livro dos milagres porque foram muitos na vida de nosso herói. Desde que nasceu seu Valério atrapalhou muito o consumo de álcool e tornou-se cada vez mais escasso seus ataques de fúria contra todos os moradores da casa, e especialmente contra a mulher. O ciúme doentio dificultou até mesmo seus trabalhos domésticos na beira do rio. Se ele ouvia a zoada de um motor ao longo, já lhe proibia de descer ao porto. Ele carregava água na cumbuca, enchia as baldes e despejava no camburão. Não permitia que uma companheira estivesse no jirau ao embarcar. Desde o nascimento do pequeno, devido a essas manias, tamanha era uma preocupação com a criança em decorrência de suas enfermidades. que estavam surgindo.
A primeira grande crise preocupante foi quando ele parou de chorar. No primeiro dia do episódio, abria a boca, fazia força, avermelhava o rosto, mas não saia nada, nem sopro. No segundo dia, além da mudança, surgiram outras reações. A exposição do rosto se alastrou pelo pescoço todo. No terceiro dia a coisa se agravou com a desinteria que ele acometeu. A segunda graça foi alcançada na vida de Valério, com o despertar de sua fé.
O perigo de ver seu filho sendo enterrado abalou a confiança do pai. A valentia, a altivez de suas palavras e atitudes foram mescladas ao aspecto temeroso e sombrio de seu rosto. Andava quieto, franzindo a testa, cabisbaixo e lento. Ele não parecia mais o valentão de outras horas. Como se fosse um novo Jó, senti a dor de estar perdendo, pela primeira vez. Reconhecer que chegou ao fundo do poço é o primeiro passo para sair de lá, esse foi o ponto inicial da recuperação do valente.
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Ele nunca tinha rezado e pouco crédito oferecido às devoções de dona Flor. Quando encontrei uma mulher rezando esboçava um sorriso e pedia pra ela rezar mais pra ver se as caças caiam na mira de sua espigarda, os peixes eram fisgados em suas bonecas e ao final desmontava seu pedido "enquanto fica aí contando bolinha e perdendo tempo, eu vou trabalhando pra manter nosso sustento". A mulher continua calada e abalada seu prece humilde feito de 'padre nosso' e ave Maria. O comportamento tão entristecido do esposo, fez dona Flor investir mais tempo nas devoções. E a mudança de seu marido foi chegando aos poucos.
Uma manhã, por volta da hora do almoço, ele adentrou o recinto da casa do jeito costumeiro dos últimos 15 dias – a passos lentos, em silêncio e preocupado. Não ouviu choro, nem alarde de seu filho. Perguntou à mulher se por acaso não seria bom procurar ajuda de outros poderes. Ela que sempre pedia ajuda de Deus e dos santos, daria certo se chamasse cumade Salu pra rezar no pequeno. Sem pestanejar dona Flor logo aceitou e acrescentou seu conteúdo explicando o poder da fé. "Ela cura. Como a criança não tem consciência de sua fé, cabe a nós confiar. Especialmente tu home-disse ela". Seu Valério revelou imediatamente as fraquezas que ele salvou. Pediu para a mulher ensiná-lo a rezar. E prometeu que se aprendesse bem, todos os dias iriam fazer sua prece a Deus.
Dona Flor aproveitou para rezar a cabeça do marido e pediu que ele repetisse o sinal da cruz. Como boa educadora, pegou sua mão e traçou o sinal da cruz em sua frente. Toda oração começa com esse gesto-disse ela. É uma saudação a Deus. É como uma chave para abrir as portas do coração, fechar a mente e o corpo contra os poderes inimigos a nos rondar. Ao final da catequese dona Flor lembrou ao marido o compromisso de repetir esse gesto todos os dias até o fim da vida. Ao entrar na mata, cair n'água, iniciar a pescaria e qualquer outro trabalho; antes de dormir e antes de levantar do sono da manhã. Pediu que ele se benzesse e fosse chamar a cumade Salu para rezar no pequeno doente.
Como novo convertido, Valério saiu de casa, benzendo-se ao cruzar a porta da casa. Ele atravessou a mata escura e ao chegar na casa da cumade, explicou o motivo de sua ida e a urgência na ajuda. O menino estava muito doente e os pais não sabiam nem imaginar qual seria sua enfermidade. Ja havia estancado a desinteria, não havia tosse, gripe ou nada parecido. Mas a criança continuava calada. De sua boca não se ouvia nem sopro quanto mais alarido infantil. Cumade Salu, imediatamente, parou suas afazeres e acompanhou o cumpade Valério.
Ao chegar na casa, a benzedera logo traçou a cruz sobre seu corpo. Entrou no quarto da criança e fitou nela seu olhar. Pediu um ramo de arruda e começou seu balbúcio com as palavras proferidas em oração. Como é o nome do menino?- perguntou ela. É Pante, respondeu a mãe. A oração contínua com o uso do raminho tocando todo o corpo do pequeno. Conforme a oração segue, a criança se mexia, expressando respostas, como se o toque das folhas fizesse cócegas em seu corpo. A mulher parou a oração, olhou para as folhas murchas, balbuciou uma prece, se aconteceu à porta e jogou fora o ramo. Pediu outras folhas de arruda e recomeçou sua prática repetindo o mesmo processo mais duas vezes.
Ao final da terceira benzição, dona Salu explicou os motivos da situação da criança. De tanto chorar forte, estava com a espinhela caída, o peito aberto e o vento caído. Mas havia algo bem complicado. A pequena tinha uma companhia espiritual muito forte. Na verdade, duas companhias. Um ser espiritual do bem o acompanhava, ao mesmo tempo um ser perigoso o rondava. Um incosto estava tentando dominar o pequeno.
Dona Salu explicou que essa situação exige a participação das pessoas mais próximas como o pai e a mãe por meio das rezas. Se voltar a ficar doente, posso me chamar que eu volto. O bebê aceitou mamar no peito da mãe, fez uma cara de alegria e Valério perguntou quanto era o pagamento. Salu respondeu que oração não se paga com dinheiro. O pagamento também é feito com oração. Ao encontrar a prática ela saiu, tomou a direção da mata e rumou pra casa pra continuar a preparação do almoço.
Agora a família poderia voltar a sorrir outra vez. A saúde foi restabelecida. Pante, Valério e dona Flor estavam apaziguados. Todos os dias, a mãe continuava sua oração. Valério meio a contra gosto aprendeu outras rezas e as praticava. Às vezes junto com a mulher, outras vezes sozinho: padre nosso, ave Maria, credo, oração do anjo da guarda e até a bença da comida. Mas um dia Valério esqueceu a prece. Só vi uma falha quando outra crise sanitária afetou sua família.
Por algum tempo, o menino não chorou mais como antes, a não ser quando a natureza realizou maiores compromissos. E motivos não faltavam para isso: na fome, na desmentidura, no susto, na birra. Quando a comida não sentou no estômago, tudo se dissolveu e o aguaceiro descia. A diarreia ou o vômito passaram um tempo hospedado naquele corpo franzino. O leite do peito materno foi o alimento garantido nos primeiros anos da infância, mas a deficiência de saúde era maior que a potência alimentar do 'cph4'. Tantas foram as graças que dona Flor se especializou em remédios para combater esse mal.
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Chá de folha de goiabeira, o leite de magnésio, pingos de copaíba dentro do leite na mamadeira e muita reza. A maior aprendizagem veio com o soro caseiro. A medida certa da mistura de sal, água e açúcar. A acolhida das doenças era combatida pela acolhida aos remédios. Com facilidade todo tipo de chá descia facilmente goela abaixo, sem consentimento ou choro. Mas até os 6 anos de vida muitas dores e preocupações foram registradas na vida desse pequeno ser, trazendo desalento e preocupação à família. Como ocorreu com o sarampo.
Após um tempo de três meses de saúde, o alarme voltou a ecoar pelos ares e as ondas sonoras captadas pelos ouvidos de Flor e Valério. Apareceu a primeira mancha no corpinho infantil. Depois veio a segunda, a terceira e as várias que se espalharam naquele corpo miúdo. A calentura da febre estava em todo o corpo. Era recente não ter a chorodeira. A criança na cama do quarto, a mãe sempre atenta, preocupada e chorosa pela situação. Como lidar com esse terno novo, que nem se sabia direito se era sarampo ou não? Nenhum dos remédios já experimentados surtiu efeito. Nem o banho das cascatas e folhas, nem a violeta, nem a magnésia passada nas feridas. O jeito foi apelar para a cumade Salu. E lá se foi Valério, numa tarde de sexta feira buscar a rezadeira em busca de cura.
Cumade Salu veio sem demora ao encontro de seu afilhado pra cumprir parte da sina confiada por Deus de rezar pelas pessoas, ensinando e fazendo remédios. Ao chegar à porta da casinha, ela fez seu ritual. Se benzeu, pediu permissão da dona da casa "Com licença" e tocou com o pé direito o piso da casa. Foi até o menino, colocou a mão sobre sua cabeça e sentiu o calor do seu corpo. "Ele tá com muita febre cumade!"- a mãe confirmou. O diagnóstico foi quase instantâneo – "isso é sarampo. O melhor remédio é controlar a febre, dá bastante água, leite do peito e aguardar uns dez dias pra doença ir perdendo força". A oração foi forte para controlar a febre e a preocupação com a mãe e o pai. Alguns chás foram ensinados e outros cuidados reforçados para evitar maiores complicações.
O tempo avançou no ritmo determinado pela natureza. Após três anos de labuta, Valério continuou sua luta diária na plantação, na pesca e na caça. Grande esforço para ver onde mais seria possível conseguir o sustento da família. Entre a juta, a malva e a roça, investiu maior esforço fazendo farinha e enviando para Manaus nos recreios. O menino melhorou sua sina e a mãe cada vez mais piedosa e fiel em suas orações. Foram elas que garantiram as vitórias de Deus sobre a família, nas horas dos perigos e das muitas enfermidades do pequeno. A cada nova etapa da vida, febre alta e outras mazelas ou acometia. Foi assim quando surgiu o primeiro dente.
Um logotipo de febre alta apareceu. O choro forte era expressão do mal estar generalizado por todo o corpo. Dava para sentir a temperatura do pequeno que em seguida à febre começava também a diluir-se em aguaceiro. O intestino logo entrou em crise, diarreia e vômito em cena uma acompanhada da outra. O primeiro dente apareceu trazendo tudo isso à cena novamente. Por isso não faltava à rotina de cuidados, os banhos e garrafadas com folhas e a ingestão de muito chá para manter a saúde equilibrada o máximo de tempo possível.
Aos três anos e seis meses até o quarto ano de vida, por quase seis meses, o pequeno Pante gozou de saúde. Sem queixa, febre, vômito ou doença aparente. Tudo parecia maravilhoso, mas algo despertou preocupação. A fragilidade do seu corpo. A dificuldade de seus movimentos. Não havia progresso motor suficiente para se manter sentado por muito tempo, não conseguia 'se virar'. Se deitado de bruços, permanece assim até que alguém o troque de posição. Tamanha a preocupação fez a mãe recorrer aos conhecimentos naturais. Massagem no pequeno com banha de jacuraru misturada com banha de camaleão, chá de canela de veado para ajudar e pó da casca de ovo de galinha caipira diluída no chá para fortalecer os ossos e ajudar na firmeza do corpo.
As alegrias também vieram chegando aos últimos e com garantia de continuidade. As primeiras palavras foram pronunciadas logo no início do segundo ano de vida. “Cara, pá, nem...”. Palavras pingadas e completadas lentamente. Havia um encanto misterioso ao ouvir palavras entre incompletas nas letras e plenas de sonoridade. A potência ouvida no choro ressoava a mesma pronúncia das palavras. Quando as palavras saiam completas, tudo ficou mais bonito. 'Mamãe, papai, neném...'. Quem o ouvia logo imaginou a sina do pequeno no uso artístico de sua voz encantando e animando muitos corações com a firmeza potencial de suas cordas vocais. Esse sonho foi quase desenhado por dona Flor. Vez por outra se via pensando no futuro de seus herdeiros diante dos microfones de uma rádio ou mesmo da TV ou de quem sabe nos palcos da vida, mandando seu recado, na cantoria, na contação de causos ou na divulgação das notícias para o mundo todo. Mas muitas águas ainda continuam de rolar sobre o girau do casebre onde reside a humilde família de Silva Bitencourt.
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Cédito da imagem: Freepik
Ela era originária da região. Cabelos negros lisos, rostos com traços firmes, lento na voz e com sorriso estampado desde os olhos até os pés de galinhas formados no canto do olho e da boca quando esboçava contentamento, ao mesmo tempo parecer cheio de severidade quando não aprovava algo. Os antepassados eram filhos da mistura de quem aqui chegou e de quem já estava por aqui desde muito antes. Há ligações familiares com a família 'Padeiro', por meio de seus avós paternos que vieram de outras bandas. Há ligações com os 'Orimáguas' por parte de mãe. Eles habitavam essa região muito antes que outros visitantes aportassem por estas terras. A esse modo de ser, acrescentou-se o modo firme e severo de Valério. Ele é originário das terras nordestinas. Chegou por aqui ainda menino. O velho Bitencourt deixou-lhe todo o legado da boa fama de trabalhador e o gosto pelo cultivo da terra, o amor pelas águas dos rios e o trato com os bichos. Essa é parte da herança genética na vida de Pante. De onde herdou a voz, talvez do estrondoso vozerio do avô paterno, no aspecto negro desde o cabelo, os olhos e a voz de trovão. Seria dele a devoção herdada por dona Flor, embora, sendo nora, conheceu de perto a luta do Velho Bitencourt nos últimos anos de sua existência. Sem nunca reclamar da sorte ou do azar, sem nunca expressar lamúria, faz qualquer pessoa se rir diante de sua presença. Olhava para a pessoa com olhar penetrante, esboçava um sorriso e dizia algo motivador “a vida sempre foi boa comigo, ser bom é minha natureza, viver o bem é minha escolha, fazer ações de segurança é minha prática até que minhas forças sejam extintas”.
Foi na sua companhia que dona Flor aprendeu rezar a Ladainha de Nossa Senhora, num latim misturado ao português mal falado entre 'auveo Maria, e rogais por nós', ou Kyrie eleson. Assim foi rezada as novenas na casa da família, até o dia em que a novena estava circulando, passando pelas outras casas, hoje terça feira até que o promesseiro construiu uma pequena capela onde as novenas passaram a ser rezadas. Muitas graças foram alcançadas pelos devotos, inclusive na família de Pante.
Dona Flor aprendeu a rezar o terço, a partir daí começou a frequentar a novena regularmente. Quando casei com Valério já tinha a prática devocional. Isso vale muito. Nas horas de maiores perigos ela sabia em quem confiar. As palavras que não saem da sua boca, calavam forte em seu coração. Não era ouvida pelas pessoas à sua volta, porque atingiam diretamente o coração de Deus. Foi assim que ela aprendeu e conservou essa verdade, inspirando-se nela para lidar com seu marido nas situações perigosas, como nas vezes que ele atravessava o rio embriagado com a canoa cheia de peixe, a cabeça cheia de álcool e o coração cheio de ciúmes. A devoção ajudou a enfrentar as várias enfermidades de seu filho. Ajudou o coração do marido quando ela o ensinou a rezar, especialmente na grande pior tristeza que o menino sofreu logo após completar quatro anos de vida.
Apareceu um arranhão na pele do pequeno e aos poucos a situação ficou complicada. A mãe analisou e logo viu o perigo. O menino foi picado por lacraia. Não demorou muito para que os efeitos mais danos aparecessem. A febre em seu mais alto grau, com convulsão. Da boca, dos ouvidos, dos olhos ouvidos. Lágrimas, espumas, saliva. A morte mostrou seu sinal com maior evidência do que nas vezes anteriores. O medo tomou conta do coração de dona Flor. Mas como já havia sido reforçado antes, a fé deu o plumo da sua conduta. Dona Flor rezou em seu filho todos os sete dias desde que a enfermidade foi evoluindo. Acendia a vela, rezava o terço e pôs o nome do filho na lista de desejos da novena. E para garantir a cura que não vinha, invoque a proteção de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, para quem rezava as novenas semanais.
'Ó minha mãezinha do Perpétuo Socorro, meu filho vive doente, peço sua ajuda para a cura da criança. Eu lhe dou meu pequeno como seu afilhado. Até aceito que ele seja levado para o céu com a Senhora mãe. Mas pela sua segurança e confiança que lhe tenho, prometo que se ele ficar curado, vou colocar pra ser leiloado no festejo ano que vem'- desse modo se firmou o compromisso entre a devota e a Senhora do Perpétuo Socorro. De fato, o menino amanheceu o quinto dia ainda ardendo em febre. Logo após a oração do terço quando foi feita a promessa, não demorou para se perceber a mudança na situação. A febre passou, o barulho do choro diminuiu e a calmaria se apoderou do pequeno ser. A alegria foi grande quando Valério chegou ao trabalho e à mulher o contorno o ocorrido. Dos olhos do herói escorreu uma lágrima de satisfação e preocupação.
Já havia festejo na capela a mais de vinte anos e a cada ano os valores das prendas só aumentavam. Como seria possível garantir que o menino não fosse arrematado por pessoas estranhas. Foi lançado mais um desafio para toda a família. Logo a ambiente também ficou sabendo do ocorrido e se alegraram com a família. Valério logo traçou um plano. O dinheiro da farinha seria insuficiente para garantir o leilão da criança. Seriam permitidas outras fontes de renda. A decisão foi tomada. Estando no mês de maio, até o final do festejo do ano corrente, tudo ocorria normalmente. De julho em diante Valério se juntaria aos trabalhadores do 'centro' e iria em busca de um ganho maior. E assim foi feito. Toda a produção feita foi entregue ao patrão. Os mantimentos foram comprados. Participou do festejo e após dois dias, rumou em direção a nova temporada de serviço, retornando pra casa para o Festejo de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. O saldo foi muito positivo. Já era possível ficar mais confiante, sem o risco de pagar a promessa e perder o filho para algum devoto com mais dinheiro.
Após a festa de natal e ano novo junto de sua família, o valente pai se arriscou na produção da juta. O patrão garantiu tudo o que foi possível para manter o trabalhador na condição de realizar bem seu trabalho. Entre os meses de janeiro a maio, o trabalho foi duro. Semear, cuidar, cortar, secar, e depois dos fardos prontos, entregar ao patrão que pagou tudo com rapidez para garantir que ao início do festejo ou ao menos no dia 18 de junho, o menino pudesse ser leiloado e arrematado pelo pai com o dinheiro do tecido.
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Finalmente a grande noite chegou. O padre veio de outro município celebrar a missa e animar a procissão. Muita gente se aglomerou em frente à capelinha. O reverendo fez questão de destacar a fidelidade dos devotos na oração e no cumprimento de seus deveres, se não todo dia, ao menos nos benefícios festivos que a Igreja promove. Essas palavras tocaram o coração do casal Silva Bitencourt. Ao encontrar a missa, as prendas foram surgindo trazida da cozinha improvisada no salão ao lado da capela, e das casas vizinhas. O leilão certamente iria varar de madrugada com suas trezentas e poucas prendas sobre a mesa, outros tantos em baixo do palco e outros que ainda iriam chegar. Logo ali estava uma surpresa a ser leiloada em breve.
Os leiloeiros ainda não foram informados da situação. Mas logo que o relógio às 22h00 o pai se moveu da coordenadora da mesa e o contorno o local. As regras e leis não impunham nenhuma proibição, e se houvesse leis assim, quem se atreveria impedir o pagamento de um compromisso firmado entre um fiel e Nossa Senhora? O leiloeiro fez o primeiro anúncio. 'E agora nossa surpresa. Valério está oferecendo a Nossa Senhora seu filho Pante. Ele alcançou a graça da cura para o bebê que não tinha mais de cinco meses quando ficou curado. Lance inicial do próprio pai, valendo $ 2.000 (dois mil réis)'. Repetiu a sentença algumas vezes, e de repente um dedo escondido fez o leiloeiro afirmar $ 3.000. O pai tinha reservado todo o valor líquido do tecido para garantir o filho arrematado. Sem titubear cobriu o lance para $ 5.000. E não demorou para o adversário lançar $ 6.000. Sem demora o valor chegou a $ 9.000. Valério se viu quando sinalizou os $ 10.000 e viu o desconhecido aparecer de pé cobrindo o valor com $ 12.000.
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O desespero tocou o coração do pai e da mãe. Tentando esconder a preocupação, ela baixou a cabeça e ouviu o leiloeiro dizer 'é um, é dois, é três; entrega na mão do freguês'. A comunidade reunida viu a cena e todos ficaram esperando pra ver o que aconteceria. Afinal, fato dessa natureza nunca foi visto nem antes por essas bandas. O senhor Tonny Castanheira, cheio de gentileza pagou a conta em dinheiro vivo e pessoalmente veio ao encontro do pai e da mãe, pediu desculpas pelo transtorno e agradeceu a Deus pela saúde do bebê e a coragem do casal em confiar tanto em Nossa Senhora a ponto de realizar esse ato de bravura.
Passado tantos quase cinquenta anos, esse fato é lembrado pelos mais velhos da pequena cidade de Anori. O bebê cresceu, segundo as possibilidades da natureza. Família formada, construída em sua casa e em frente à residência, localizada em um pequeno escritório de conserto de bicicleta e uma voz comunitária. O eco de sua voz esteve no ar por vários anos. Do corpo miúdo, a voz robusta continua ecoando nos leilões da padroeira, na mesma área onde um dia ele foi a prenda. Seu pai entrou para o caminho da eternidade. Sua mãe idosa, sente o peso do tempo e o carinho de seu primeiro filho. Os amigos mais chegaram alegam que sua beleza foi tão destoante a ponto de ser devolvido à mesa do leilão, a brincadeira dos amigos não condiz com a generosidade do pequeno gigante Pante conhecido e amado por todos que o conhecem.
Anori, 14 de novembro de 2022

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